WILCE DA MINHA VIDA
- 12 de abr. de 2016
- 7 min de leitura

O amor calcula as horas por meses, e os dias por anos;
e cada pequena ausência é uma eternidade.
Imagine então um ausência física consagrada, por isso que hoje,
eu e o dia choramos com saudades de você.
Esse texto foi escrito originalmente em 19 de novembro 2010. Quatro infinitos anos após o falecimento de minha Mammy eternamente querida Wilce Damasceno Lopes.
Sei que muitos não terão disposição ou paciência para ler o que escrevi.
É um texto pessoal, extenso e na NETSfera há aquela fatia de leitores impacientes com esse tipo de postagem (sim, surpreendentemente existem visitantes que não gostam de ler, um paradoxo? um enígma?) Não importa. Exatamente este mês, mais precisamente hoje, dia 19, faz 4 anos que minha mãe fez a passagem, resultante de um problema crônico e genético em seu coração. Uma data impossível de esquecer. Impossível de não citar. Alias, tudo que falo, penso e faço tem muito dela, do que me ensinou, do que me transmitiu com seu amor. Era minha única amiga verdadeira, daquele tipo que não precisava contar meus segredos, ela os decifrava a todos eles, num simples olhar, mesmo que eu não dissesse uma palavra, que eu tentasse esconder, ela os percebia!
Minha Mãe era o tipo de pessoa que estendia a mão, sem pestanejar, que te aquecia a alma e fazia todas as dores passar com a docilidade e meiguice de seu toque.
Depois que ela se foi eu mudei muito, em todos os sentidos.
Mudei meu foco em relação a morte e principalmente a visão da vida. Confesso que ainda hoje me sinto surpresa com a repentina partida, é como um sonho. Parece que foi ontem que tudo aconteceu...
Tenho a mesma sensação de saudades daquela época de antigamente, quando eu ainda era menina, e em alguma emergência minha mãe precisava sair e não podia levar-me, - porque nem sempre eram assuntos que crianças podiam presenciar - , eu ficava aborrecida pelos cantos, triste, esperando ela voltar.
Porque a Mãe era assim, estava sempre a disposição de quem precisasse dela e literalmente de coração enorme ia por vezes ajudar alguma das minhas tias, ia visitar alguém de suas relações nem que fosse apenas para ouvir os queixumes dessa pessoa. Ela se doava, de corpo, alma, coração. Tudo o que estivesse em seu alcance, ela fazia, e não parava enquanto não conseguisse. Pode parecer que pinto um retrato lindo dela, mas essa é uma grande verdade. Não sou só eu que a vejo assim.
Sim. Eu a AMO de maneira tão intensa, que beiro a idolatria. Mesmo assim, como todo ser humano, ela tinha seus defeitos, mas confesso, impossível não vislumbrar que suas qualidades interceptavam os pequenos e poucos defeitos, daquela pessoa aparentemente frágil e pequena, mas de uma bondade que não cabia nela mesma.Mas quem a conheceu, assina embaixo de minhas palavras, porque ela se doava integralmente... e sem esperar algo em troca.
Minha Mãe foi uma revolucionária em seu tempo, transgrediu, quebrou paradigmas e para alguns certamente, foi até amoral. Mas o que realmente importa é que ela amou intensamente e foi amada, foi feliz.
Foram mais de 40 anos de um AMOR, daqueles que um completa o outro de tal maneira, que dificuldades que poderiam parecer intransponíveis, transformaram-se em alicerce, solidificando ainda mais o sentimento que uniu meus Pais.
Não dá pra não dizer que tivemos altos e baixos.
Meu Pai faleceu quando eu tinha 15 anos, no meu último ano de colégio. Dormi "rica" metaforicamente falando e acordei, quase "sem eira, nem beira".
Eu e ela, fomos aos poucos nos acertando e eu pus como objetivo, lhe dar uma velhice digna e o mais tranquila que conseguisse, por amor e por saber que ela era merecedora de TUDO o que eu fizesse.
O seu AMOR foi tão significativo como exemplo e prática, que ao me casar, ela ganhou um filho. E ele foi nosso amparo e a bússola, que nortearia as ações nos últimos meses que desfrutamos de sua presença física neste plano.
Acho que um dos grandes sonhos de toda mãe é ver sua filha casada. Então no dia 6 de janeiro de 2006, dia em que ela completou 83 anos, eu e o Orígenes Junior, oficializamos nosso AMOR, diante de DEUS e dos homens. Mal eu sabia, que em novembro ela se despediria de mim.
Pode parecer estranho para muitos ou até incompreensível, mas sempre roguei a misericórdia de DEUS para que ela não sofresse.
Em sua última semana, a sua maior preocupação era pedir a todos de quem dela se aproximaram, que cuidassem de mim, que não me deixassem só, que tomassem conta de sua filhinha. Como sempre, ela estava mais preocupada comigo do que com ela mesma.
É difícil e vai continuar sendo, encarar o dia-a-dia sem tê-la mais ao meu lado para acalentar, conversar, discutir, silenciar, ouvir, amparar, aconselhar, apoiar, motivar....AMAR!
Todo dia pela FÉ, que aprendi com ela, acalmo sua ausência em meu coração. Tem dias mais fáceis, outros nem tanto. Tem dias que dói de maneira insuportável. É um vazio...um vácuo! Nessas horas procuro no infinito, na imensidão do céu, no vento a soprar, a força necessária para sorrir, acreditando, que ela continua a me amar, proteger, guiar, abençoar. Continua sendo até além do infinito, MEU ANJO DE AMOR.
Sigo exercendo e exercitando uma das suas últimas frases que ela disse a mim e ao Junior: "ninguém morre, quando permanece vivo no coração de alguém".
Essa máxima, faz com que eu A sinta em mim, vibrando em meus poros todo o legado desse amor bonito que ela incondicionalmente dedicou a mim.
Lamento quem pensa diferente, mas eu definitivamente não tenho como aceitar que nossos laços findaram ali, que foram quebrados. Não!. Enquanto houver vida em mim, ela viverá. Mammy amava receber meus cartões feitos à mão. Eu lhe fiz muitos durante toda nossa vida. Ali estava a minha essência, que ela tão bem conhecia, mas em algumas daquelas mensagens utópicas encontrei um pouco de conforto, e meu coração minimizou o grito que de mim emanava, logo após a sua partida.
Não foram gritos de revolta. Foram o desespero da avassaladora saudade, do extenso vazio que me faziam sufocar, e que lendo e relendo cada uma daquelas linhas, tornava palpável sua ausência física, trazendo à memória a emanação de paz e ternura, que ela sempre inspirou.
Como para saudá-la, o sol abriu-se voluntarioso e bonito, como a aguardar no calor intenso que emanava, aquela pessoinha querida, que exalava amor. Seu semblante tinha um leve sorriso, calmo, terno... como quem diz: - "tranquiliza-te filha, estou nos braços do Pai! Não estarei mais fisicamente ao teu lado, mas continuarei a te amar, nossas almas estão ligadas pelo amor".
- "Tranquiliza-te e segue em paz, sentirás o meu amor prosseguir, te abençoarei todos os dias, iluminarei teu caminho com a benção de Deus".
Estou em ti, e estás em mim. Fale comigo, que eu te ouvirei. Peça-me carinho, que eu te darei. E quando DEUS te chamar, lá estarei pra te receber e abraçar... Nem toda poesia e palavras do mundo, conseguiram preencher esse primeiro vazio. Já havia passado pela aventura do toque, da frieza do corpo sem vida de outras pessoas queridas. Mas ali era diferente. Era meu "Cheirinho" que quase cabia na palma de minha mão."
Lembrei que ainda no dia anterior, tinha servido à ela de encosto, senti o calor do seu corpo junto ao meu e chorei.
Chorei porque eu já podia sentir a intensidade da falta que teria dela, que tanto eu amava abraçar, contar-lhe uma estória só para tentar vê-la sorrir... Contar-lhe os lugares que tinha visto, nas viagens que fiz sem ela. Falar dos eventos realizados por mim. Tomar-lhe a benção ao chegar ou sair. Ou dizer-lhe que ia colocá-la de castigo, quando ficava de birra por não querer se alimentar...Ah tempo! Mas ali estava aquele invólucro que a gente chama de corpo e que tanta gente hoje em dia dá um valor extremo, e passa a vida toda se martirizando por ter uns centímetros a mais aqui e ali, um cabelo não adequado aos padrões de estética ou um nariz perfeito, mas que ao reflexo do espelho lhe parece torto.
Naquele momento, já não era mais a minha Mãe. Não era mais aquela que me ensinou a amar a Deus, a escrever e a gostar muito de ler, aquela que me ensinou as coisas da vida, a ser mulher.
Ali, era somente um corpo frio, uma casca. Ela não estava mais lá. Ela já estava totalmente em mim... impregnada mais do que nunca nos meus poros, no meu viver, no meu pensar. Sabe, não é deprimente ou funesto pensar na morte, principalmente de alguém que era tão querida e cheia de vida.
Generosa. Amável. Acolhedora. Conciliadora. Mansa. Meiga. Caridosa. Cheirosa. Amiga. Quem a conheceu , tenho certeza disso que não saiu incólume.
Era linda, no melhor sentido da palavra, em sua gigante fragilidade e pequenez.
Sinto muito a ausência. Sua lembrança me traz nostalgia, saudades.
Lembrar-me dela me deixa triste sim, pra quê mentir, não é sempre, mas há momentos que lágrimas teimam rolar pela minha face, tão forte e intensas que parecem uma fonte de água a jorrar.
E ela se foi, em um dia repleto de sol, Deus a acolheu em sua derradeira viagem. Assim como as chuvas que se vão e deixam o ar refrescante e limpo, a terra úmida, fértil, minha Mãe deixou tão boas lembranças, tantos ensinamentos, palavras sábias, que é só fechar os olhos e a memória me traz sua presença, seu riso manso, o gosto de seus quitutes, o calor de seu abraço, o olhar que afagava minha alma, que me repreendia e me acalmava, num turbilhão de sentimentos.
Sei que está descansando, de férias. E Creio, que Deus nos dará na eternidade o momento em que iremos nos reencontrar.
E hoje, se eu fosse compor uma música para expressar meu sentimento por ela , repetiria aquela que lhe dedi-quei em sua Missa de 80 anos, e que diz COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ, do Roberto Carlos, a quem ela era fã e esperava ansiosamente os shows dele, todo fim de ano.
Infelizmente, nem sempre dizemos com palavras, tudo o que nos vai no coração, e essa música maravilhosa, expressa a amplitude dos meus sentimentos...pois "...NEM MESMO O CÉU, NEM AS ESTRELAS, NEM MESMO O MAR E O INFINITO, NÃO É MAIOR QUE O MEU AMOR, NEM MAIS BONITO.... ME DESESPERO A PROCURAR, ALGUMA FORMA DE LHE FALAR, COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ...!"
Então, como homenagem a lembrança de uma mulher que tinha o amor ao próximo como filosofia de vida, que amava musica e muitas vezes acordava cantando, deixo com vocês essa estrofe na esperança que de alguma forma ela inspire seus corações.
Também ofereço essa música ao meu marido que compartilhou comigo da alegria de ter sido muito amado por ela. A minha tia, minha mãe Preta, aos sobrinhos, netos e amigos que a adotaram de alguma maneira, meu muito OBRIGADA em forma de oração.
Eu, sinceramente espero em Deus, que quando for minha vez de sair de cena, no final de minha celebração terrena, deixe ao menos para alguns que conviveram comigo, a mesma alegria, a mesma lembrança suave e doce que ela nos deixou.
Para WILCE DAMASCENO LOPES, que sempre foi minha "Prima Dona", o meu aplauso saudoso e repleto de amor!!
Obrigada SENHOR,
por cada dia, cada milésimo de segundo que ao lado dela, o Senhor me presenteou.


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