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DEGRADAÇÃO HUMANA

  • 13 de set. de 2016
  • 4 min de leitura

Não tenho tanto tempo de caminhada nessa vida, e menos ainda de compreensão sobre fatos que chocam, mostrando-nos como se nos batessem na cara a contínua degradação humana, que poderia até já sido exterminada, mas que infelizmente polula entre nós e em todo mundo. Quando penso que já vi muita coisa, não demora a surgir algo para me surpreender, para mostrar que sou uma inocente incorrigível, uma crédula com um coração esperançoso de quê em algum momento, esteja eu ainda aqui ou não, esse tipo de situação não exista mais. Ontem, 12-9-16, a caminho de um ensaio, pela janela do carro, presenciei um fato que proporcionou grande estarrecimento em mim, para não ser exagerada. A involução do ser humano é algo que me assusta sobremaneira, não é de hoje, o que torna difícil a compreensão da humanidade. Sempre gostei de sugar a sabedoria dos mais velhos, de lhes ouvir relatos de experiências e seus conselhos, ainda que não os tomasse para mim, pois a vivência que eles possuem não deve ser desprezada em momento algum. Dizem os mais experientes que o mundo está a um passo do fim, algo que o cotidiano tem provado com surpreendente acerto. Mammy já dizia que a maldição que ronda o dinheiro vem de muito longe e é inquestionavelmente irreversível.



Não precisamos ir longe, por questões apenas materiais até Judas traiu Jesus Cristo. Deixando de lado essa passagem bíblica, aprendi ao longo de mais meio século que o homem é capaz de trair a si próprio por causa de um amontoado qualquer do vil metal. Essa crise sócio-política-financeira por que nosso país passa, só tem agravado e distanciado, os que se regalam nos prazeres que o dinheiro pode comprar, dos muitos que perderam seus trabalhos e com isso a dignidade de viver ou sobreviver com um mínimo de dignidade. O fato que me chocou e me deixou com uma sensação que ainda não consegui definir, foi me deparar com um senhor que igual a um animal sedento, bebia água da sarjeta. Sim....da sarjeta! Não me interessa se ele é portador de algum problema psíquico, se estava drogado ou algo do gênero. O que me tocou, incomodou mesmo é o fato em si, e a dura realidade de que como ele, devem existir inúmeros outros vivendo igual ou pior. Eu estava dentro do carro, parada em um sinal. Mas, as pessoas que cruzaram com aquele homem, o faziam como se ele fosse invisível, sem nenhuma demonstração de comoção e solidariedade ao menos no olhar. A gente como um todo, fala muito, quer muito, fazemos pouco. Todos queremos, com raríssimas exceções: saúde e educação de boa qualidade; país sem corrupção; governantes coerentes – responsáveis e comprometidos com o povo. Num discurso muito bonito, exigimos, jogamos pedra, questionamos...mas esquecemos do principal que é nos envolvermos mais, ajudarmos, estendermos a mão. O medo e a desconfiança, imputada pela falta de segurança recorrente e os quadros de violência que vemos diariamente, tem nos colocado em um pedestal que nos faz ver esse tipo de situação como mero espectadores, quando muitas vezes podíamos apenas oferecer um prato de comida, um copo de água, uma roupa que já não usamos mais. Não compete só aos políticos a tomada de decisão que visem modificar esse quadro, triste e real. O esforço também tem que vir de cada um de nós, pois isso só será possível se erradicarmos de uma vez por todas os sentimentos que causam degradação moral e social, como por exemplo: a ganância e vaidade desenfreadas, inveja, avidez, intolerância, arrogância, teimosia crônica, falsidade, competitividade, prepotência, rancor, egoísmo, apego ou avareza, insensatez, insegurança, mesquinhez, ódio, orgulho, voluntarismo, corrupção, fatalismo, voluptuosidade, inferioridade, autopiedade, preconceito e sentimento de superioridade em relação aos outros. Quantas pessoas passam fome enquanto produzimos grãos, utilizamos solos, água, energia para garantir aquele churrasquinho com os amigos ou família no final semana? Quantas pessoas deixaram de se alimentar, sem acesso aos recursos necessários para comprar a sua alimentação enquanto saboreamos aquele bife diário, as vezes nas duas refeições? Calma. Não é errado o fazermos. Errado é deixarmos de cobrar a quem colocamos para nos representar nos cargos políticos, ações eficazes em todos os níveis, pois não nos faltam riquezas, isso é um fato inquestionável. A verdade é que não existe falta de alimentos, o que falta são condições para que as pessoas mais pobres tenham acesso a ela, faltam mecanismos capazes de promover a produção de alimentos sem agredir o meio e sem a capitalização da sua produção, falta vontade, informação, conscientização e humanização. Eu também tenho medo as vezes de abrir a janela do carro, ou olho desconfiada para o transeunte que se aproxima de mim, as vezes maltrapilho....mas a gente precisa abrir o coração. Nem sempre eles nos querem fazer mal. Podem estar precisando só de alguém que lhes deseje um bom dia, para prosseguirem com um resquício de esperança em dias melhores. Vivemos numa usina de desmandos e escândalos que tem transformado esse país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, em objeto de burburinhos mundo afora. Mesmo assim, quero seguir com minha inocência intocada e o coração cheio de esperança, acreditando que juntos, podemos sim modificar as circunstâncias que levam pessoas como a que presenciei ontem, a ter oportunidade de trabalho, de saúde, segurança, sem precisar comprar um terreno em Marte, por sentir vergonha da nossa falta de atitude diante da vida.


 
 
 

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