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EUTANÁSIA

  • 11 de set. de 2016
  • 8 min de leitura

Incrível como alguns temas ou assuntos, sem quê nem pra quê, reaparecem do nada e tomam lugar em nossa mente. Um desses assuntos voltou a baila pelas mãos da PLIM PLIM e ontem - 10/9/2016 - reaparece através de um depoimento de uma para-atleta que tem uma doença crônica degenerativa, e pensa nesse procedimento polêmico, mas legalmente permitido em seu país de origem.

É duro pensar que o desespero da dor, da falta de esperança em uma cura ainda inexistente, na abreviação do sentimento que corrói os entes queridos que a cercam dada pela sensação de impotência; leva sim alguém a beira desse abismo sem volta ou resgate. Quem sou eu para ao menos pensar em discorrer o certo ou errado sobre o assunto, mesmo que dentro do contexto religioso que rege minha vida, não seja permitido como outra qualquer questão que dá fim a dádiva da vida de um ser, sem ser por causa natural.

Enquanto seres humanos, somos inclinados a fazer de tudo para vivermos e darmos com mesma intensidade possibilidades para quem nos é próximo, e até para desconhecidos.

Os nossos reflexos e respostas nos habilitam para lutar contra intempéries, afugentar animais e afastar-nos do trajeto de acidentes. No nosso dia-a-dia exercitamos a cautela e o cuidado necessários para nos protegermos. Os nossos corpos estão similarmente estruturados para sobreviver até ao nível molecular.

Quando a gente se corta, lá por dentro acontece uma revolução que provoca a coagulação do sangue, e acho eu, que inicia o processo de cura da ferida. Existem os anticorpos para combater os organismos invasores, e outros tantos métodos, engrenagens...que somós nós, essa máquina humana.

Por isso que não tem como, não ver a eutanásia como um instrumento que violenta o objetivo natural da sobrevivência. Já que ao se optar por ela, se está agindo contra a natureza, porque todos os processos naturais intrínsecos em nós estão inclinados para a sobrevivência. A eutanásia derrota todos os mecanismos sutis ou não, de forma tal que, num caso particular, a doença ou os ferimentos não o fazem..

Muito embora Deus saiba todas as coisas, e nenhuma folha caia da árvore sem sua permissão, ELE também sabe desses pensamentos nefastos, cabendo a nós realmente o livre arbítrio, sobre o ato a ser cometido ou não.

Haverá sempre o embate entre o lado religioso x científico, por conta da grande questão versar exatamente sobre o ponto em que a liberdade do sujeito que sofre poder ou não, em sã consciência determinar se sua vivência é justificada seja pelas suas crenças, vontade individual, ou por simples compaixão para com aqueles que seriam atingidos pela sua morte.

Quem trilha os caminhos cristãos, tem noção que o ser humano enquanto tutor do seu corpo age contra Deus ao pensar ou optar pela eutanásia, pois é ELE o real proprietário que determina, quando e como termina com a vida.

Não há como negar que tal ato, viola os mandamentos divinos que declaram a santidade da vida e impedem que dela possamos dispor sem uma razão verdadeiramente irresistível..

É instigante analisar uma gama de incógnitas e possibilidades, pensando nos avanços científicos, nas drogas que surgem e estão em teste, nas probabilidades de cura através dos tratamentos experimentais.

Tudo isso, são meus pensamentos, que não levam a qualquer conclusão, como jamais chegarão perto do sofrimento e angústia de quem vive os estertores de uma doença crônica e degenerativa, que até o momento não tem nenhuma perspectiva de cura.

Não consigo imaginar me deparar com tal situação.

A gente analisa de fora.

Julga de fora.

E não cabe a mim dizer, se é pouca fé, desespero extremado, falta de esperança....

O que sei é que a eutanásia não é um dilema recente, é uma discussão que permeia a história humana por ser de uma complexidade inexpugnável e sensível, tendo em vista mexer com a escolha individual da vida pela vida, ou o direito de escolher quando o sofrimento ou a dor pode se tornar uma justificativa tangível para que se busque a morte como meio de alívio.

Independente do que a gente acredite, olhar o mais friamente possível e de fora, a nível de religião ou ciência todos temos uma única certeza: um dia iremos morrer. Frase clichê mas que expressa bem a ideia de que o fim é certo.

Por mais que saibamos que a morte é inevitável e irá chegar para todos, independente do nosso querer ou não querer, nunca estamos preparados o suficiente para perdermos quem amamos. Seja de que maneira for.

Se de repente ou lentamente, alguém com valor inestimável, desaparece desse mundo, finca em nós só as lembranças. A gente tende a mergulhar num mar de saudade e vazio difícil de preencher, difícil de voltar à tona. Nos vemos sós, finitos e abandonados.

Para....pensa por um instante.

Se nos é sofrível, vermos partir com dignidade a quem amamos, como será para àqueles que vêm seu ente definhar, perder toda e qualquer ação/reação e razão sobre o próprio corpo, depender de máquinas e tubos para manter a 'vida', virar um 'vegetal' e como tal ir secando aos poucos, findando num estereótipo esquelético que nada representa do que foi um dia? Dá pra antever o desespero que envolverá todos os atores, principais ou coadjuvantes.

Acho sinceramente que é de pirar o cabeção. Será que dá mesmo para passarmos incólumes sem nos colocarmos no lugar dessas pessoas que passam por sofrimentos agoniantes, que serão martirizados até o fim, levando seu corpo ao colapso total, exatamente por não haver nada que minimize tal sensação? Complicado.

Pelo âmbito religioso não caberia nem passar perto desse pensamento, mesmo assim, a questão bate e volta, sem calar e conter a dúvida de que até que ponto se tem ou não direito de parar de sofrer e aí se acertar com o CARA lá de cima? É um ato covarde ou da mais pura coragem? Quem sou eu pra responder!!!!!!!

Partindo do pressuposto que DEUS é AMOR e o AMOR é também perdão. E ainda, que ELE perdoou à Judas, tanto pela traição, como pelo suicídio causado pelo remorso.....será mesmo que ELE não perdoaria esse ato?

Não tenho argumentos para chegar perto de alguma resposta e nem as quero. Porém o que me marca e lateja é pensar em quem tem que seguir, quando se tem que ignorar o tamanho do amor; o dia-a-dia de uma história; a convivência, e tudo que ela envolve; para 'assassinar' alguém que agora te faz muito mal. Bem dito, mal, não por si mesmo, mas pelo outro. Por não haver cientificamente mais nenhum lenitivo possível, ou por se sentir como um objeto sem mais utilidade.O que imagino é a dolorosa dificuldade da tomada de alguma decisão.

Devem surgir um bando de caraminholas, levando as pessoas a se sentirem mártires ou algozes, dançando em uma corda bamba de afeto tantas vezes atacado e abusado deliberadamente, invertido pela fraqueza de se sentir incapaz de atenuar ou decidir sobre o deixar ir por amor, ou se agarrar a tênue e frágil linha de uma vida que se esvai por entre os dedos, tosada até mesmo da esperança de algo que amenise a inércia do sofrimento.

Como fica a cabeça de quem tem que pular ou se deixar queimar na fogueira, maltratada pela 'covardia ou egoísmo' de se querer 'aquela' pessoa a qualquer custo, mesmo que em detrimento ao direito de partir com um mínimo de dignidade, e acabar sendo taxada como o mais desprezível ser, por ter tomado pra si mesmo a decisão de dar um basta a uma vida, mesmo que já só uma figura volátil do que tenha sido um dia. Sei lá, olha!

Quando a gente fala de eutanásia, nos leva direto para o lado constrangedor de uma decisão questionada por todos os âmbitos. Contudo, a saúde brasileira pratica atualmente a eutánasia dura e cruel com a população de um modo geral. Pela falta de recursos, de políticas sérias, de profissionais qualificados.

Se alguém disser que estou errada, atire a primeira pedra por favor. Não tenham pena de mim.

Coloco minha cara a tapa.

Posso estar fugindo do contexto inicial a que me propus, porque a dor de quem vê uma pessoa querida agonizando, sem nenhum tipo de suporte ou auxílio, é uma eutanásia que o poder público nem sempre tem a dignidade de puxar pra si a responsabilidade.

E eu estaria sendo injusta de crucificar somente o atendimento público.

Qual será a sensação de quem tem alguém em uma UTI, por sei lá quanto tempo, em uma clínica particular e já vendeu carros, casa, e tudo que estava nas mãos; mas se vê diante de uma conta que se a pessoa continuar, não vai ter como pagar. E aí? Como faz?

O desespero é tão martirizante, quanto o mal que assola a pessoa na UTI, imagino eu. Porque se deixar a pessoa permanecer recebendo o atendimento que precisa, não terá como pagar. Se a tirar e não conseguindo leito em hospital público, estará decretando à morte aquele ser.

Terrível por todos os lados.

Isso não é a legalização da eutánasia vestida com a máscara dos que, como cavalos e burros com suas viseiras que os induz, olham só para um ponto de uma questão tão abrangente?

A variedade de doenças e mazelas são aterradoras, tanto quanto a quantidade de pessoas atingidas, largadas em corredores imundos, chorando de dor, servindo de curiosidade como animais raros, sentindo sua dignidade humana se esvair, como a vida que vai também aos poucos deixando seus corpos.

Ah....e tem mais.

Será que não é um tipo de eutanásia, quando se abandona idosos, jovens e crianças, por quaisquer que sejam os motivos.....será? Deixando-os nas sarjetas, nos lixões ou abrigos e delegando a outrem a responsabilidade de os cuidar e amar?

Ou ainda, mesmo dentro de nossas casas, os isolamos como peças inúteis e enferrujadas que só fazem ocupar espaço?

Temos é que deixar a hipocrisia de vez de lado.

Aceitarmos nosso lado anjo e nosso lado bestial.

Dobrar os joelhos pedindo sabedoria.

Terrível ou transloucada minha posição a respeito? Pode ser. Asseguro entretanto que meu relato, não é a transcriçao de nenhum filme de horror ou humor negro.

É o que acontece. É a realidade.

Sou leiga no que diz respeito as teorias, normas e práticas que envolvem o ato da eutanásia, e o sendo, já quase piro sem entrar nas questões mais 'formais' do assunto, quiça se o fizesse.

O pensamento aqui exposto, volto a dizer, se restringe mesmo a pensamentos nem tão particulares, já que os estou expondo, que transbordaram talvez levada pela quantidade de perdas, particularmente esse ano de pessoas queridas.

Estou de luto, muitos sabem, e esses velórios estão cada vez mais frequentes.

E a cada um, não se perde nunca a tristeza inicial, ao contrário tem alguns que quase são inimagináveis para aquele momento, e tendem figurativamente a levar junto, familiares mais próximos ou mais dedicados.

Ainda assim se persiste, independente do que se sinta.

Sepulta-se os vivos.

Segue-se em frente, mesmo triste e/ou magoado(a). Isso sim, é sem opção. Mas fazer o quê, não é mesmo?!!

Durante nosso templo nesse plano, sempre haverá o caminho e o desvio, o certo e errado, o gordo e magro, amor e desamor.

Assim como também a gente sabe que existem os que não sabem amar, e os que não sabes ser amados.

Acho que essas possibilidades mencionadas acima, seriam talvez, as duas únicas razões que legitimam o desistir de alguém, para aqueles que estão vazios, ocos de sentimentos.

Nunca diria a alguém o que fazer, nem estou dizendo que todo mundo deveria agir de acordo com o que eu penso. Acho mais justo porém, que cada um assuma seus pensamentos e ações, tornando real o direito de escolha, levando em conta ou não, os fatores religiosos, científicos e morais.

Se uma religião X ou Y é contra, que oriente os fieis a não o fazerem e pronto. Mas obrigar as pessoas a seguir uma corrente religiosa não é, nunca foi e nunca será a solução. Basta lembrar a idade das trevas que veremos o mal que isso pode acarretar.

Se não tomarmos cuidado, com esse crescimento enorme de extremistas radicais que se vestem de cordeiros, acabaremos mais uma vez sendo invadidos ou abduzidos por politicas e aplicação de leis de acordo com suas crenças, levando as futuras gerações, ou as forçando a viver em pouco tempo em um mundo laico, desértico de sentimentos, embasado unicamente na fria ciência...sem a opção de continuar a SER.



 
 
 

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