FILHOS DO CORAÇÃO
- 17 de abr. de 2016
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Como qualquer ser humano normal, tive e tenho vários sonhos.
Bem novinha, queria ser mãe aos 15 anos, porque pensava assim.....quando eu estiver na casa dos 30 e poucos, meu filho terá de 14 para 15 e poderemos curtir a vida juntos.
Não aconteceu nem naquela época e nem depois.
E por mais que muitos pensem, não fiquei traumatizada e nem me sinto inferior as outras mulheres que dentro da minha faixa etária, já estão até tendo netos.
Nada disso me impediu de amar alguns seres como filhos meus. Não quero crer, que as pessoas venham até as outras, como no meu caso, pouco ou nada sabendo da nossa história, e mesmo assim, fiquem questionando, "futricando", cutucando situações que estão calmas em nosso coração.
Várias vezes, já passou um frêmito de temor que mais tarde, não tenha ninguém na minha velhice. Sem alguém que ouça meus queixumes, minhas rabugices. Mas vou mesmo me tornar infeliz desde agora? Onde fica minha Fé nos desígnios de Deus? ELE que sempre esteve e está comigo me suprindo de força, amor, cuidado...??!!!
Tem ainda o outro lado da situação, filhos não são garantia de nada. Tanto em noticiários, quanto próximos de nossas vidas, sabemos que tantos idosos são abandonados a própria sorte, tendo gerado e criado uma "escadinha" de filhos. No decorrer de minha história, me deparei com abortos que me mudaram internamente. A genética nesse ponto não me favoreceu e ponto. Durante um tempo resisti em aceitar essa condição limitadora e por infantilidade, imaturidade ou outro "ade" qualquer, esperava que aparecesse em minha porta uma criancinha pra ser adotada.
Nem uma coisa, nem outra.
Por conta do que tinha visto e vivido, tranquei-me pela incerteza de que atitude tomar e decidi, reconheço que erroneamente, me jogar de corpo e alma ao trabalho, evitando e usando-o como desculpa.
Também assumo não ter tido a sensibilidade necessária para abraçar a adoção, mesmo sendo eu, adotada e tendo o exemplo maravilhoso de entrega total, exercida e vivenciada por meus pais.
Talvez e só talvez, isso tenha sido um resquício proveniente da insensibilidade e intolerância, citando apenas poucos itens, vividos por mim, relativos aos preconceitos exacerbados de pessoas que se diziam cultas, e não passavam de tolas e ignorantes. Pulei fugueiras, por acreditar e lutar em ser igual a qualquer outro ser humano, sem importar a cor de minha pele ou o fato de ser adotada.
Não cabe na minha personalidade, não foi isso que meus pais me ensinaram e muito menos foi o que convivi com meus amigos de infância e adolescência. Hoje percebo que devido a inocência infantil e a toda atenção, carinho e amor que recebia por parte de meus pais, e de pessoas mais próximas a nós, criei em mim figurativamente, uma redoma, que impedia de certa forma que a vilania, inveja e a maldade manchassem minha alma pura de criança feliz.
Eu havia ouvido por vezes as pessoas se referirem a mim como "aquela negrinha que a Wilce e o Nonnato criam, blá blá e blá blá", porém lhes confesso, eu não entendia a malícia contida nesses comentários que eram quase velados, como a "falsa" tolerância com que alguns membros da "família" me recebiam.
Não posso dizer que lamento essa não convivência, já que os familiares que hoje abraço e os tenho em alto grau de importância, bastam para que sinta a real experiência de que sangue e DNA, não são exclusivos para se formar e perpetuar laços de amor e respeito.
Após o falecimento de meu Pai e minha incursão na área trabalhística, tiveram os pontos mais fortes, vexatórias e marcantes, relacionados diretamente ao preconceito de maneira ampla, geral e irrestrita.
E ao lembrar dessas situações, agradecida e emocionada pelas bençãos de Deus primeiramente e pelo amor de meus Pais, afirmo peremptoriamente que não HÁ em mim, nenhum trauma e sequela, ranhura, mágoa, rancor ou raiva pelo que vivi.
Não foi fácil e muito menos agradável. Imaginem o que é uma jovem de 18 anos, sair para trabalhar com seu chefe e outros colegas, e na volta, após deixar a todos os colegas, seu chefe se virar e lhe dar um ultimato: - ou "dá ou desce". Está claro hoje, que ele esperava que por ser jovem, negra e imatura, eu iria ceder. Não esperava que eu abrisse a porta do carro e descesse em um lugar ermo, longínquo e distante de onde trabalhava e morava.
Mais uma vez agradecida, lhes relato que medo tive. Não tinha como ser diferente. Porém, a integridade dos valores morais que recebi, eram mais palpáveis do que o sentimento de medo. E ao descer, também já havia tomado a decisão que no outro dia pela manhã bem cedo, meu pedido de demissão estaria sobre a mesa. E assim aconteceu.
Esse caso é apenas uma ilustração de outros mais que aconteceram durante minha vida.
Infelizmente, as pessoas não estão acostumadas a se depararem com atitudes firmes, opiniões sólidas e com alguém que não se permite viver nada, do que não mereça. Que não se cala ao se ver pressionada ou supostamente oprimida.
Tenho plena e total consciência que fui muito além, muito mesmo, do que achavam que eu conseguiria.
Tenho orgulho de ser quem sou. Não aquele orgulho que pisa, menospreza, se sente melhor ou superior aos outros. Orgulho por ter dormido "rica", por assim dizer e acordado "pobre". Ter ido à luta junto com a minha mãe e a ajuda de pessoas valorosas e de bom coração, e ter chegado até aqui. Ainda hoje, existem pessoas que não falam comigo, que me olham de soslaio, sem quererem ou conseguirem entender que não é a cor da pele, o tipo de cabelo, a conta bancária, que determinam e fazem com que se alcance objetivos e realize sonhos.
Tudo porque lutei, como me posicionei diante da vida, a conclusão de uma graduação e pós-graduação, um mestrado deixado próximo da finalização por opção pessoal e o casamento....tudo está pautado no AMOR, no ESMERO e na DEDICAÇÃO de dois seres humanos de inquestionável grandeza de alma e coração.
Talvez seja por isso que tantos me perguntem, o por quê de não ter tido filhos meus ou adotivos. Já que eu sou adotada!!!!!
Eu não descartei essa ideia de forma egoísta, ou por "benefício" próprio, como continuar sendo o centro das atenções ou do amor, agora do meu marido. Isso me torna menos feliz? Tenho algum recalque por conta disso?
Sob o meu ponto de vista, recebi tantas e tantas bençãos, que não me passa pela cabeça reclamar e questionar a Deus por não ter um prosseguimento de mim e do Junior. Não me julgo perfeita, muito menos dona da verdade, mas se nesses anos todos, a partir dos 15, não aconteceu de eu ter um ser só para que eu pudesse amar, é que Deus me deu outras oportunidades, outros seres que não precisaram ser gerados ou adotados por mim, mas a quem amo, como se meus fossem.
E notem que isso só se dá, pela grandeza dessas mães e pais, que não se incomodam e nem se enchem de ciúmes por eu declarar e viver com eles, esse amor.
Sou feliz por ter participado de suas vidas, desde a mais tenra infância. De os ter acompanhado e saber do 1o namorado(a), da iniciação sexual, conclusão de graduação, casamento, sonhos e por aí vai. Sinto muita alegria pois sei, que eles nutrem por mim um afeto filiam e amigo, que mais uma vez se sobrepõe aos laços de sangue, já que realmente não o temos. Exulto como qualquer mãe que recebe a noticia que vai ser avó,que passaram em um concurso, que foram promovidos. Porque é assim que me tratam, é dessa forma que sinto o amor deles por mim. Sou a bruxa, a prima-irmã, a prima, a tia, a amiga-irmã, ti-vó, a Dada, tia Dada, a Maira, a tãe, a vovó ou a vovó "Doidinha". O forma de tratamento aqui, é o que menos conta. O que pesa de verdade, é o sentimento, é como tocamos o coração do outro. É a certeza que independente dos caminhos, haverá uma palavra, um carinho, um ombro, um colo, um abraço pra oferecer e receber. Sim, tenho muito Amor em mim, e eu o distribuo para aqueles que minha alma acolhe. Se não adotei uma criança até hoje, é porque não era pra ser.
Não vou discutir com Deus, e ponto final!


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