ALGUÉM ESQUECEU O SIGNIFICADO DO JURAMENTO?
- 27 de abr. de 2016
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Iniciei praticamente minha trajetória profissional, e marquei época, realizando grandes festas para as turmas de Medicina da UFAM. E depois para outras áreas da saúde.
Transito nesse mundo desde então, tendo conhecido GRANDES e MARAVILHOSOS médicos, que em momentos pontuais de aflição, exerceram maestralmente e humanamente o juramento que lhes abre a porta, para o pleno exercício do que se propuseram. Sem contar os não menos GRANDES e VALOROSOS médicos que ilustram minha vida, tanto do lado familiar, quanto de amigos muito queridos.
Independente destes profissionais com letra maiúscula em suas iniciais, pelo mérito de humanidade, ética e atenção, dedicada a seus pacientes; me sinto ensimesmada quando me deparo com a frieza e a artificialidade no tratar com o outro ser humano, por parte de alguns destes "profissionais", adquiridas sei lá em que momento dos vastos anos percorridos entre as salas de aula, corredores dos hospitais e centros cirúrgicos. Ou se foram picados pelo bichinho da soberba logo após a graduação ou conforme foram empilhando os certificados das especializações realizadas mundo afora. A gente sabe, que a dedicação, as noites insones, o distanciamento social, a pilha de livros, a quantidade de congressos, trabalhos e tudo mais, beira o perfeccionismo dos que não tem opção de errar. Por menor que esse erro possa parecer, ele pode ser um fator complicador, que levará alguém a óbito.
Não é novidade pra ninguém que a saúde está na beira da sarjeta suja e cheia das mais resistentes infecções hospitalares, que se tem registro nas últimas décadas. O que figurativamente a deixa próxima de um AVC fulminante, por não encontrar nenhum socorrista que atue eficientemente aos procedimentos corretos, sem pagamento antecipado ou na pior das hipóteses, se depare com uma máquina de reanimação, que não consegue tirar do estertor sequer uma formiga, imagina um ser humano; e a esperança e a vida se esvai pelo ralo da descrença e do pouco caso.
Infelizmente, o estertor está também em toda pessoa que optou trilhar esse caminho da saúde, independente de ser na rede pública ou privada, mas que esqueceu - e vou mais longe -, não se entregou por inteiro ao significado proferido em alto e bom tom, com o peito inflado de orgulho, do juramento na colação de grau. Deixando-se entorpecer logo ao apagar das luzes, pelo vil metal que uma carreira bem sucedida pode prover.
Muitos profissionais da área da saúde - e aqui quero abrir um parêntese e colocar nesse rol, também enfermeiros, técnicos de enfermagem, cuidadores e todos os demais ligados direta e indiretamente a área - atuam com uma frieza tão aparente, que ao se aproximarem dos mais desavisados, correm o risco de serem congelados, sem nem perceber.
Médicos abrem as portas de seus consultórios com mesas de mármore, ou os mais toscos perdidos pela periferia, sem ao menos levantar os olhos, dar um bom dia compreensivo em vez do gutural. Sem falar das caras amarradas, onde o semblante dá a impressão de que a qualquer momento irão pular no pescoço do paciente aterrorizado, findando de vez o mal e qualquer blá blá blá, que o faça perder o seu tempo precioso.
Calma.
Antes de quererem me amarrar em um poste e me açoitarem como a época da escravatura, seja sincero e busque na memória se você mesmo não passou por uma circunstância dessas, ou alguém muito próximo a você não relatou algo parecido?!!!.
Eu não ingeri bebida alcoólica, tomei barbitúricos ou estou inventando o que aqui exponho por despeito, ou apenas por uma insana vontade que me invadiu e decidi macular esses profissionais. Não mesmo. É uma cruel observação da realidade e auto experiência.
Ainda bem, que nos momentos mais difíceis por mim vividos, tanto em relação aos últimos dias da Mammy, quanto com um problema sério que tive; em ambas situações, reconheço; tivemos o melhor atendimento e a compreensão de quem com sensibilidade, percebe a fragilidade e a angústia por notícias, sobre o diagnóstico ou tratamento a ser seguido.
Quem adentra a um PS, Urgência, hospitais, consultórios ou clínicas, não o faz como parte de um passeio turístico. Está procurando ajuda para algum desconforto, doença ou informações sobre um ente, amigo, sobre alguém que nos é importante. A falta de delicadeza e respeito também nessas horas, é no mínimo revoltante.
E o que mais me deixa balançada entre a revolta e a indignação, acontece na grande maioria das vezes, na rede privada. Virou lugar comum, pagar valores relativamente altos - mas justos sob o ponto de vista da dedicação, e atualização contínua para a boa execução profissional -, marcar hora e ter que chegar cedo, pra poder ser atendida mais ou menos dentro do horário previamente agendado, e óbvio, se o profissional em questão se dignar a cumprir seu horário. É compreensível alguns atrasos e ponto.
Quem se propõe a trabalhar com o público, na área que for, tem que ter intrínseco à personalidade, desenvolver ou buscar aprender a arte de ouvir as pessoas, de observá-las, de examiná-las, interpretar-lhes palavras ou gestos, suprindo suas dúvidas com serenidade e segurança, mostrando as opções mais adequadas, ou as informações apropriadas.
Isso acontece por exemplo, comigo também, já que trato com as mais diferentes pessoas, com os mais inexpugnáveis sonhos, que as vezes as condições financeiras apresentadas, me fazem as puxar pra realidade, mas com toda uma delicadeza no falar.
Desculpas relativas a falta de tempo ou problemas pessoais não podem intervir na atuação, fechando as portas para escutar a história que têm a contar, ou no meu caso, o que o cliente tem a relatar. Se porventura for uma questão séria e perturbadora, não dando condições de separar o profissional do pessoal, é preferível cancelar a agenda ou indicar um colega com o mesmo perfil, do que maltratar quem lhe busca para obter meios de sanar seus problemas.
Todo profissional da área da saúde, é claro que é um ser humano com problemas, defeitos e qualidades, como qualquer outro. Por isso mesmo que eu acho inconcebível esse tratamento frio e distante que está virando lugar comum. Ninguém precisa colocar no colo o paciente, ou abraçar aos que chegam esbaforidos pelo desespero e angústia do diagnóstico ou pelo resultado dos exames realizados. Mas convenhamos que a maneira de conduzir a conversa e apresentar tanto uma situação quanto outra, pode fazer uma diferença enorme, entre a aceitação positiva ao tratamento, ou levar ao último grau de desespero que poderá culminar num pensamento mórbido de dar cabo à própria vida.
Muito ao contrário do que possam estar pensando, não estou escrevendo um roteiro para os dramalhões mexicanos, ou alguma série da HBO....quem dera!!!! Retrato o que venho observando de uns tempos pra cá, dividido entre as idas e vindas a médicos, acompanhando alguém, sendo para mim mesma, e agora mais presentemente ao tratamento de saúde que um querido membro da família do meu marido vem realizando.
A dualidade das ações profissionais, me dá a impressão que vivemos em mundos paralelos, em cima de uma corda bamba. Pelas graças de Deus, sempre há uma boa alma, que se compadece e descendo do pedestal de todo conhecimento absorvido, consegue aquietar a ansiedade e angústia, pelo motivo que for. Contudo, isso não é uma regra, está mais para exceção.
Indubitavelmente parece que eles se esquecem, que nem todo dinheiro do mundo, muito menos o conhecimento adquirido e exercitado ao extremo cansaço, poderá comprar ou lhes escancarar as portas da eternidade. O fim chega para todos, sem mandar aviso prévio, indicar hora ou o modo como vai acontecer.
A gente sabe de casos, de médicos renomados, que morreram sozinhos, isolados, não propositalmente...mas por terem seus parentes impedidos de lhes dar ao menos um tchau, e serem vitimados pelas mesmas regras e horários estabelecidos, cumpridos à risca para com os seus, como ele havia feito com muitos dos familiares de seus pacientes.
As cifras e o poder que elas figurativamente proporcionam, não garantem a plena felicidade, nem a cura para doenças que se reinventam atrozmente, deixando os remédios de última geração ultrapassados e inócuos.
Nem todo o dinheiro do mundo, os Botox e vitaminas ingeridas, irão estancar o envelhecimento interno de órgãos essenciais para prosseguir aqui neste palco. As pessoas podem buscar as últimas tecnologias, como o congelamento após a morte, sem saber se lá no futuro, as pesquisas relativas a ressuscitação desse congelamento, garantirá o retorno à vida igualmente a anterior e sem sequelas. De repente, se pode enveredar pela ficção e filmes 'noir' e buscar por um vampiro(a) sedutor ou a fórmula de se tornar um Highlander.
Vai depender do grau de imaginação, da importância e necessidade em se tornar de qualquer maneira imortal.
Deixando minha divagação fantasiosa um pouco de lado, bato mais uma vez na tecla que precisamos nos conhecer e respeitar nossas limitações. E com isso ecoar no outro, o que queremos para nós próprios.
Atuar com pessoas não é fácil em nenhum aspecto, ainda mais se está diretamente ligado ao desejo altruístico de salvar vidas ou realizar sonhos.
E voltando ao foco central desse texto, em minha humilde ignorância de expectadora das aberrações e grosserias chocosas, deprimentes e desrespeitosas, e como paciente ocular da soberba, arrogância e descaso; penso que algo se perdeu entre o juramento e a ação, para muitos dos profissionais atuantes na área da saúde, onde a cura, apoio e suporte, deveriam ser uma finalidade secundária da medicina, tratando como objetivo fundamental enlaçar e compreender a aliviar o sofrimento humano.
Ainda bem....que sempre existirá aqueles profissionais dedicados e sensíveis, que doam o seu melhor e exercitam com sabedoria e humanidade todas as palavras que compõem o juramento, do original de 1771 ao atualizado. Ahhhhhh, esse meu peito cheio de esperança!!!!!!


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