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ENTRE O PONTO FINAL (.) E AS RETICÊNCIAS (...)

  • 22 de mai. de 2016
  • 5 min de leitura

A morte não precisa ser e não é o ponto final.

Temos muitas vezes o hábito de achar ou pensar que a morte é finita.

Penso na morte, como as reticências que inspiram o título desse texto. Reticências, as quais uso sempre em profusão.... que, aliás, se não sei se perceberam, estão sempre contidas nos meus textos e que adoro usar…

Escrevo muito com reticências, sem me preocupar se as coloco em local e situações certas, pois as mesmas me levam para o infinito, para o interminável. É essa a idéia que quero dar.

Porque temos que colocar um ponto final e sacramentar como encerrado um assunto, um tema, uma questão ou situação?

A vida ou a morte são finitas para quem não tem fé. Para quem deixa-se perder em um amor de momento, frívolo e sem raíz, sem base.

Porque não podemos encarar os nossos relacionamentos, nosso trabalho, nosso prazer, nosso fazer, com reticências?!!!! Afinal, se um relacionamento não deu certo, se aquele caminho ou opção não aconteceu como a expectativa criada, ao menos serviu de aprendizado, amadurecimento e de crescimento para outros que poderão vir…

Assim encaro a vida e a morte… com reticências!

Aliás, morte e sexo, são dois temas que nunca nos são ensinados.

Aprendemos sempre na prática, no momento de passarmos por eles, e dessa forma podem ser traumáticos ou não. Ou então, não tem o significado e a beleza que os mesmos representam na valorização do nosso viver.

E existe alguma beleza em morrer?!!! Depende de como a gente encara o partir.

Quando aprendemos a enxergar a morte como uma passagem, enxergamos as reticências, e não o ponto final… Inclusive o “velório” deve ser vivido, como exultação e aclamação de tudo aquilo que aquela pessoa nos fez aprender, chorar, rir, viver…

Não deveríamos ver o velório como uma despedida, apenas não estamos mais no mesmo espaço físico, no mesmo plano… mas com certeza estamos muito mais e intensamente unidos no plano espiritual.

Amar, mesmo que dolorosamente inexpugnável, é também deixar ir. É aceitar essa partida momentânea e crer na possibilidade de um reencontro futuro.

É se permitir sofrer a ausência física e o vazio da saudade, mas ter o despreendimento de não querer aquela pessoa que se ama, sofrendo os espamos angustiantes de dores ou a vida vegetativa sem a menor consciência da própria existência.

Sim....sim....sim. É claro que eu faria de tudo para ter ainda a meu lado, minha Mammy amada e querida. Mas que ela estivesse bem. Que tivesse um mínimo de qualidade de vida. E nada a ver, ser por medo ou preguiça de ter que cuidar dela, ao contrário, é o mais puro amor. É não querer a quem se ama, sentir os estertores das dores causadas pelos males que lhe afligem.

É não querer ter um ser inanimado pra chamar de seu. Sem voz. Sem reflexo. Sem ação e vontade própria.

É também entender que todos cumprimos um tempo aqui.

E só os bons de coração, os de fé inabalável, se vão e se entregam nas mãos de Deus.

É acreditar que o Senhor fez o melhor.

Mas isso não é atestado de que não haja sofrimento, dor, lágrimas.

Se formos racionalizar de verdade...quando choramos, choramos por nós. Choramos porque nós não temos mais ao alcance da mão, aquela pessoa que nos era tão especial. Sofremos por não podermos tocar, abraçar, dizer que amamos e o quanto amamos....ou por não ter aproveitado nada disso. Choramos também por remorso....por culpa...de sabermos que não demos e fizemos o nosso melhor.

Infelizmente não são simples conjecturas.

Eu penso que deveríamos exercitar mais em nós o rompimento destas barreiras e lidar com estes temas com toda naturalidade em nossas casas, com nossos filhos, nossos amigos, até porque, quando vivemos os limites da morte/vida, e a compreensão da passagem, com certeza iremos valorizar muito mais nossa própria vida, não nos deixando levar por atos pequenos, mesquinhos, discussões bobas. Afinal, a vida é um dom e um milagre que nos é oferecido dia a dia…

Não é normal, mas por vezes nos perdemos ou perdermos o foco da caminhada, porque temos o hábito de viver no futuro: quando eu tiver… quando eu puder… quando meus filhos crescerem… quando …E então nos esquecemos de viver o presente.

Martin Luther King nos diz: “A pior de todas as tragédias não é morrer jovem, mas completar setenta e cinco anos de idade e ainda não ter realmente vivido.

Eu concordo com ele, sabe?!

Nos vejo, a todos, como viadutos entre passado e futuro. No entanto, ao conversarmos sobre a morte, algo tão natural e certo em nossa vida terrestre, temos o intenso prazer de valorizar o presente e vivê-lo intensamente, segundo a segundo, sem nos preocuparmos com o futuro…

As vezes, metendo os pés pelas mãos, sem pensar nas consequências, em um imediatismo barato e imaturo.

É certo que morremos muitas vezes nessa vida, não apenas fisicamente – no prazo de sete anos, todas as células do nosso corpo são renovadas – mas também emocionalmente e espiritualmente, porque as mudanças nos seguram pela nuca e nos empurram para frente, para uma outra vida...

“A alma tem o poder de, nos momentos mais supremos de aflição, suspender-se ao fio mais tênue da esperança.” (não sei quem é o autor, infelizmente)

Não estamos aqui para simplesmente existir, mas para crescer… E não é em altura ou largura...crescer e evoluir emocionalmente e espiritualmente. Precisamos abrir nossos corações, jogar fora nossas vestes dos (pré) conceitos amealhados no decorrer da caminha.

Precisamos aprender a perdoar, mesmo que essa jornada seja árdua, dolorosa, apavorante e surpreendente. Sim...temos medos. Medo de nossas situações, sentimentos e circunstâncias.

Mesmo com todos esses sentimentos, temos que encarar nascer, viver e morrer...já que são aprendizados e normalidade em nossas vidas, ou melhor, como a pura expressão da vida que pulsa a cada minuto em nosso dia a dia.

A sabedoria de Santo Agostinho nos ensina delicadamente sobre a morte e foi e é um alento para os meus dias de grande saudade, ele diz assim:

A morte não é nada.

Apenas passei ao outro mundo. Eu sou eu. Tu és tu.

O que fomos um para o outro ainda o somos.

Dá-me o nome que sempre me deste. Fala-me como sempre me falaste. Não mudes o tom a um triste ou solene. Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.

Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.

Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou. Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.

A vida continua significando o que significou: continua sendo o que era. O cordão de união não se quebrou. Porque eu estaria fora de teus pensamentos, apenas porque estou fora de tua vista? Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.

Já verás, tudo está bem.

Redescobrirás o meu coração, e nele redescobrirás a ternura mais pura.

Seca tuas lágrimas e se me amas, não chores mais.”

É assim que sigo...na certeza que o amor transcende o espaço temporal.

É desta forma, que me desarmo diante dos tabus e dos preconceitos referentes a temas tão profundos e substanciais, mas que se vividos com naturalidade, nos trarão liberdade interior de vivermos cada vez mais intensamente todos os nossos sentimentos…


 
 
 

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